Ser ou não ser urbano?

15 11 2010

Quem diz que a vida no interior é mais tranquila e saudável ou nunca viveu no interior ou nunca foi gay. Tempos atrás escrevi sobre a hipocrisia que impera em pequenas cidades e, na época, já concentrava meus esforços pra me mandar pra um lugar melhor maior. Pois bem, o dia da partida chegou. Meus esforços deram tanto resultado que, no final, eu pude até escolher meu destino. Assim vim parar na capital dos gaúchos…

Sair de uma vila com pouco mais de 5 mil habitantes e cair numa cidade com mais de um milhão é uma experiência bem interessante, mas meio frustrante também.  Acho que já aprendi a me virar com o transporte público, aprendi a atravessar ruas sem ser atropelado, consigo encontrar os lugares pra onde quero ir (thanks to Google Maps) e tenho me virado bem com o básico. Mas me sinto meio sem cultura por aqui. As pessoas falam sobre política, artes, conhecimento e todos esses assuntos interessantes de uma forma tão natural que eu me perguntava como isso era possível. Isso foi até eu perceber o motivo pelo qual a vida em uma grande cidade realmente vale a pena: as oportunidades que ela te dá de ser uma pessoa melhor. É só imaginar (e ter dinheiro) que você pode fazer o que quiser aqui. E o melhor de tudo: você pode ser o que você quiser ser. Ninguém dá a mínima. Ninguém quer saber. Ninguém se importa. O anonimato é outro desses prazeres que só quem vive em uma cidade grande pode ter.

Ah, sim, tem a violência, a poluição, o barulho, o trânsito caótico e todos esses fatores que contribuem pra uma vida bem estressante, mas isso tudo faz parte do pacote e, quanto mais eu me adapto com minha nova vida, mais eu tenho essa sensação gostosa que nunca antes tinha experimentado: a de que estou em casa.

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Ser ou não ser do interior?

20 10 2009

vacaPara a maioria das pessoas, morar no interior significa morar longe do litoral em uma cidade com 80 a 100 mil habitantes. Pra mim, morar no interior significa morar em uma cidade com 7 mil habitantes (e beeeem longe do litoral).

Existe uma lenda que diz que a vida no interior é mais sossegada, as pessoas são menos individualistas, menos estressadas e mais felizes. É verdade que em lugares assim você vai da sua casa até o seu trabalho em menos de 20 minutos, o transito não é nem um pouco complicado (quase não existe), você pode cumprimentar todas as pessoas que encontra na rua (porque todos conhecem todos) e pode ter uma vida bem tranquila e sossegada. Desde que você não fuja do padrão! E essa é a parte difícil pra qualquer pessoa que se atreve a pensar diferente (na realidade nem precisa tanto, só pensar e questionar já é suficiente). Cidades pequenas são lugares parados no tempo, altamente conservadores e resistentes a qualquer tipo de mudança. Se você quiser viver feliz em lugares assim você precisa pensar como a sociedade dos grandes centros urbanos pensava em 1943. Não pergunte, não duvide, obedeça, seja um exemplo de cidadão, siga todas as indicações, jamais diga que o governo militar não foi um bom governo (porque naquela época não existiam vadios) e, principalmente: não seja gay!

A verdade, entretanto, é um pouco diferente dos pressupostos positivistas que regem o comportamento dos interioranos. As mesmas mulheres que condenam a filha da vizinha por estar grávida e ser solteira, são as que levam homens para seus quartos enquanto seus maridos estão viajando. Os cidadãos de bem que não perdem uma missa no sábado à noite, saem da Igreja e correm pra disputar um dos dois travestis que trabalham na saída da cidade (afinal, se você come um viado, você não é gay, então isso pode). Isso entre diversas outras histórias que só quem vive no interior tem o privilégio de conhecer. E, acredite, mesmo que você não dê a mínima para o que os outros estão fazendo, você sempre saberá de tudo, porque o que menos falta em lugares desse tipo são aquelas solteironas de meia idade que passam o dia cuidado da vida alheia pra depois correr tomar um chimarrão na casa do vizinho mais próximo e contar tudo, detalhe por detalhe, do que acontece de pior na vila em que você vive.

Eu tentei, juro que tentei me adaptar ao modo de vida desse lugar. Também tentei não ser gay. Mas não consegui nem um nem outro. Mesmo que eu não fosse gay eu não me adaptaria… Não sigo as indicações (mas leio todas), sempre duvido de tudo e estou longe de ser um exemplo de cidadão. Mas acho que foi bom eu não conseguir me adaptar, pois esses lugares são capazes de nos corromper e podemos terminar acreditando que não somos capazes de nada e que devemos ser como todo mundo pra que sejamos respeitados.

Cheguei a acreditar que o problema fosse comigo, afinal, eu é que estava fora dos padrões e esse devia ser o motivo pra eu não conseguir fazer amizades aqui. Felizmente, antes de eu deixar de pensar e me tornar mais um cidadão comum de um lugar comum no meio do nada, conheci pessoas fora da bolha e percebi que eu não estava tão errado assim… Infelizmente, depois de tanto tempo no interior, tornar-se urbano pode ser um pouco difícil. E o grande problema é que no final, não importa o quanto você se esforce, você sempre será um pouco interiorano…