Ser ou não ser do interior?

20 10 2009

vacaPara a maioria das pessoas, morar no interior significa morar longe do litoral em uma cidade com 80 a 100 mil habitantes. Pra mim, morar no interior significa morar em uma cidade com 7 mil habitantes (e beeeem longe do litoral).

Existe uma lenda que diz que a vida no interior é mais sossegada, as pessoas são menos individualistas, menos estressadas e mais felizes. É verdade que em lugares assim você vai da sua casa até o seu trabalho em menos de 20 minutos, o transito não é nem um pouco complicado (quase não existe), você pode cumprimentar todas as pessoas que encontra na rua (porque todos conhecem todos) e pode ter uma vida bem tranquila e sossegada. Desde que você não fuja do padrão! E essa é a parte difícil pra qualquer pessoa que se atreve a pensar diferente (na realidade nem precisa tanto, só pensar e questionar já é suficiente). Cidades pequenas são lugares parados no tempo, altamente conservadores e resistentes a qualquer tipo de mudança. Se você quiser viver feliz em lugares assim você precisa pensar como a sociedade dos grandes centros urbanos pensava em 1943. Não pergunte, não duvide, obedeça, seja um exemplo de cidadão, siga todas as indicações, jamais diga que o governo militar não foi um bom governo (porque naquela época não existiam vadios) e, principalmente: não seja gay!

A verdade, entretanto, é um pouco diferente dos pressupostos positivistas que regem o comportamento dos interioranos. As mesmas mulheres que condenam a filha da vizinha por estar grávida e ser solteira, são as que levam homens para seus quartos enquanto seus maridos estão viajando. Os cidadãos de bem que não perdem uma missa no sábado à noite, saem da Igreja e correm pra disputar um dos dois travestis que trabalham na saída da cidade (afinal, se você come um viado, você não é gay, então isso pode). Isso entre diversas outras histórias que só quem vive no interior tem o privilégio de conhecer. E, acredite, mesmo que você não dê a mínima para o que os outros estão fazendo, você sempre saberá de tudo, porque o que menos falta em lugares desse tipo são aquelas solteironas de meia idade que passam o dia cuidado da vida alheia pra depois correr tomar um chimarrão na casa do vizinho mais próximo e contar tudo, detalhe por detalhe, do que acontece de pior na vila em que você vive.

Eu tentei, juro que tentei me adaptar ao modo de vida desse lugar. Também tentei não ser gay. Mas não consegui nem um nem outro. Mesmo que eu não fosse gay eu não me adaptaria… Não sigo as indicações (mas leio todas), sempre duvido de tudo e estou longe de ser um exemplo de cidadão. Mas acho que foi bom eu não conseguir me adaptar, pois esses lugares são capazes de nos corromper e podemos terminar acreditando que não somos capazes de nada e que devemos ser como todo mundo pra que sejamos respeitados.

Cheguei a acreditar que o problema fosse comigo, afinal, eu é que estava fora dos padrões e esse devia ser o motivo pra eu não conseguir fazer amizades aqui. Felizmente, antes de eu deixar de pensar e me tornar mais um cidadão comum de um lugar comum no meio do nada, conheci pessoas fora da bolha e percebi que eu não estava tão errado assim… Infelizmente, depois de tanto tempo no interior, tornar-se urbano pode ser um pouco difícil. E o grande problema é que no final, não importa o quanto você se esforce, você sempre será um pouco interiorano…

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5 responses

20 10 2009
tatyseixas

Graças à Deus que você não abaixou a cabeça e se tornou um ‘cidadão comum de um lugar comum no meio do nada’. Viva a diferença! Imagina que mundo chato seria se todo mundo fosse igual, pensasse igual, vestisse igual? Aposto que a taxa de suicídios ia parar nas alturas…

Agora, de uma coisa eu discordo de você: tenho certeza que você se sentiria super em casa em uma capital, você é uma pessoa com pensamento tão cosmopolita!

Por isso, continuo na campanha: Leo, vem pro Rio! O único problema é que vc não ia querer voltar nem ‘po-den-do’! Hehehe. Enfim, sou apenas uma amiguinha botando pilha… Bjus venenosos!

22 10 2009
Leonardo

Se eu não abaixei a cabeça foi porque conheci pessoas fora da “bolha” que me fizeram acreditar que as coisas são diferentes. E você sabe o quanto você contribuiu pra isso né? Beijo!

20 10 2009
Amanda

Ta certo que eu descobri ha pouco tempo que não gosto de cidades grandes, mas depois da sua descrição de uma cidade com 7 mil habitantes, acho que vou ficar com as de 100 mil! Ta de bom tamanho, né?
E ai, quando vc vai deixar sua ‘vila’ e ir descobrir o que o mundo tem a oferecer a alguém sem medo dos vizinhos fofoqueiros?

22 10 2009
Leonardo

Acho que 100 mil habitantes tá relativamente bom, mas certifique-se de que não fica muito longe de uma cidade maior e que tem linhas aéreas, férreas, fluviais ou viárias que liguem facilmente uma cidade a outra. ^^
Todos os meus esforços estão voltados pra me mandar daqui. Espero que nos próximos meses eu possa ir pra uma cidade um pouquinho maior.

22 10 2009
tatyseixas

\o/\o/\o/\o/\o/ Torcida Rio 2010! Hehehehe. Bjus.

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